Fulano
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Venha o leitor comigo assistir à abertura do testamento do meu amigo Fulano Beltrão. Conheceu-o? Era um homem de cerca de sessenta anos. Morreu ontem, dous de Janeiro de 1884, às onze horas e trinta minutos da noite. Não imagina a força de animo que mostrou em toda a moléstia. Caiu na véspera de finados, e a principio supunhamos que não fosse nada; mas a doença persistiu, e ao fim de dous meses e poucos dias a morte o levou.
Eu confesso-lhe que estou curioso de ouvir o testamento. Há de conter por força algumas determinações de interesse geral e honrosas para ele. Antes de 1863 não seria assim, porque até então era um homem muito metido consigo, reservado, morando no caminho do Jardim Botanico, para onde ia de omnibus ou de mula. Tinha a mulher e o filho vivos, a filha solteira, com treze anos. Fo i nesse ano que ele começou a ocupar-se com outras cousas, além da família, revelando um espirito universal e generoso. Nada posso afirmar-lhe sobre a causa disto. Creio que foi uma apologia de amigo, por ocasião dele fazer quarenta anos. Fulano Beltrão leu no Jornal do Commercio , no dia cinco de Março de 1864, um…
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.