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Capa de Lúcia (Machado de Assis, 1864)

Lúcia (Machado de Assis, 1864)

Machado de Assis (1839–1908)

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O começo

Nós estávamos sós; era de noite; / Ella curvára a fronte, e a mão formosa, / Na embriaguez da cisma, / Tenue deixava errar sobre o teclado; / 5Era um murmúrio; parecia a nota / De aura longínqua a resvalar nas balsas / E temendo acordar a ave no bosque; / Em torno respiravam as boninas / Das noites belas as volupias mornas; / 10Do parque os castanheiros e os carvalhos / Brando embalavam orvalhados ramos;

Ouviamos a noite; entre-fechada, / A rasgada janela / Deixava entrar da primavera os balsamos; / 15A várzea estava erma e o vento mudo; / Na embriaguez da cisma a sós estávamos, / E tínhamos quinze anos!

Lucia era loura e pálida; / Nunca o mais puro azul de um céu profundo / 20Em olhos mais suaves refletiu-se. / Eu me perdia na beleza dela, / E aquele amor com que eu a amava — e tanto! — / Era assim de um irmão o afeto casto, / Tanto pudor nessa criatura havia!

25Nem um som despertava em nossos lábios; / Ella deixou as suas mãos nas minhas; / Tibia sombra dormia-lhe na fronte, / E a cada movimento — na minh'alma / Eu sentia, meu Deus, como fascinam / 30Os dous signos de paz e de ventura: / Mocidade da fronte / E primavera dalma. / A lua levantada em céu sem nuvens

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