Uma Senhora
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Nunca encontro esta senhora que me não lembre a profecia de uma lagartixa ao poeta Heine, subindo os Appeninos: «Dia virá em que as pedras serão plantas, as plantas animais, os animais homens e os homens deuses.» E dá-me vontade de dizer-lhe:--A senhora, D. Camilla, amou tanto a mocidade e a beleza, que atrazou o seu relógio, afim de ver se podia fixar esses dois minutos de cristal. Não se desconsole, D. Camilla. No dia da lagartixa, a senhora será Hebe, deusa da juventude; a senhora nos dará a beber o néctar da perennidade com as suas mãos eternamente moças.
A primeira vez que a vi, tinha ela trinta e seis anos, posto só parecesse trinta e dous, e não passasse da casa dos vinte e nove. Casa é um modo de dizer. Não há castelo mais vasto do que a vivenda destes bons amigos, nem tratamento mais obsequioso do que o que eles sabem dar às suas hospedes. Cada vez que D. Camilla queria ir-se embora, eles pediam-lhe muito que ficasse, e ela ficava. Vinham então novos folguedos, cavalhadas, musica, dança, uma sucessão de cousas belas, inventadas com o único fim de impedir que esta senhora seguisse o seu caminho.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.