
O Fim do Mundo
Joaquim Manuel de Macedo (?–1882)
O começo — I
Estava reservada ao Martinho a triste obrigação de escrever a lúgubre historia do cataclismo por que passou a cidade do Rio de Janeiro, e por que muito provavelmente há de ter passado o mundo inteiro no fatal dia 13 de Junho.
Eu sou o novo Noé que sobreviveu ao novo diluvio! e sou ao mesmo tempo o Moysés do século das luzes que deve referir o infausto caso do fim do mundo no ano de 1857.
Não fui daqueles estouvados incrédulos que zombárão da profecia do cônego de Liège; tive sempre a maior veneração pelos cônegos, e não havia de ser em uma questão de cometa que o Martinho duvidasse da palavra de um cônego.
Também não me contei no numero dos terroristas e dos aterrados, que, esperando, pelo fim do mundo no dia 13 de Junho, não pensárão em escapar ao dilúvio, e resolvêrão-se a morrer imóveis e caladinhos como carneiros.
A ideia de acabar como capão, peru, ou leitôa em dia de banquete me revoltava deveras. « Que! disse eu a mim mesmo, conversando com os meus botões; que! o Martinho, que tinha direito a considerar-se immortalisado pela fama, há de assim sem mais nem menos perder a sua imortalidade, reduzido a torresmo pelo fogo da cauda de um cometa? »
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.