
A Moreninha (1860)
Joaquim Manuel de Macedo (?–1882)
O começo — I
—Bravo! exclamou Fillippe, entrando, e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho; bravo!…. interessante cena! mas certo que deshonrosa fora para casa de um estudante de medicina, o já do sexto ano, a não valer-lhe o adagio antigo: O hábito não faz o monge.
—Temos discurso!…. atenção!… ordem!… gritárão a um tempo três vozes.
—Cousa celebre! acrescentou Leopoldo, Fillippe sempre se torna orador depois do jantar.
—E dá-lhe para fazer epigramas, disse Fabricio.
—Naturalmente, acudiu Leopoldo, que, por dono da casa, maior quinhão houvera no cumprimento do recém-chegado; naturalmente: Bocage, quando tomava carraspanas, descompunha os médicos.
— C'est trop fort! bocejou Augusto, espreguiçando-se no canapé em que se achava deitado.
— Como quiserem, continuou Filipe, pondo-se em hábitos menores; mas por minha vida que a carraspana de hoje ainda me concede apreciar devidamente aqui o meu amigo Fabrício, que talvez acaba de chegar de alguma visita diplomática, vestido com esmero e alinho, porém tendo a cabeça encapuçada com a vermelha e velha carapuça do Leopoldo; este, ali escondido dentro de seu robe de chambre cor de burro quando foge, e sentado em uma cadeira tão desconjuntada que, para não cair com ela, põe em ação todas as leis de equilíbrio, que estudou em Pouillet; acolá, enfim, o meu romântico Augusto, em ceroulas, com as fraldas à mostra, estirado em um canapé em tão bom uso, que ainda agora mesmo fez com que…
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