Canseiras em Vão
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — Capítulo I
Dois rapazes estão sentados a uma mesa da casa do Carceller, tomando sorvete e conversando pacificamente de vários assuntos seus.
Um deles tem vinte e cinco anos; é alto; muito claro; e tem a inefável felicidade de possuir um par de bigodes compridos e encaracolados. Digo a felicidade porque ele de quando em quando volta o rosto para o espelho que lhe fica ao pé, e afaga com amor o artefato da natureza e do barbeiro.
É baixo o outro, moreno, e também dotado de um par de bigodes, infinitamente menores que os do outro, e pouco mais que um buço.
E contudo é ele muito mais velho que o primeiro; tem trinta e quatro anos, e não parece. Ninguém lhe daria mais de vinte e seis.
Araújo é o nome deste; o nome do outro é Soares.
Conversavam eles, como disse, de assuntos seus, quando Soares, que ficava de frente para a rua, disse repentinamente:
— Que é aquilo?
— O quê? disse Araújo voltando a cabeça.
Aquilo era uma mulher que nessa ocasião estava parada em frente da porta do café conversando com um homem. Mas essa mulher era conhecida de Soares? Não. Conhecia ele o homem? Ainda menos. De onde vinha o espanto do rapaz?
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