Sapo do Cariri
Sílvio Romero (?–1914)
O começo
No sertão de Cariri / Havia um sapo casado, / Na seca de oitenta e nove / Quase que morre torrado.
Determinou a mudar-se / Levando consigo a Gia, / Descendo cabeça abaixo / Em procura da Bahia.
É certo que vai pejada / Dona Gia de Menezes, / Que já vai a completar / A conta de nove meses.
E deu no pé de uma serra / Nos mares de Acaracu, / Logo ali a tardezinha / Deu na casa do teiú.
Bateu na porta do dito: / "Deus vos guarde, meu Senhor, / Vasmincê, por caridade, / Dá-me um rancho por favor."
— Não, senhor, não pode ser, / Pois a casinha é pequena, / Não havemos de caber. / Ao demais, pelo que vejo, / Parece que não vem só, / Pelo trem que vem trazendo / Também traz a sua avó.
"Não, senhor, a minha avó / Há muito que já morreu; / Esta que trago aqui / É a mulher que Deus me deu. / Disto mesmo me arreceio / De andar a riba e abaixo, / Com medo qu'ela não para / Antes que chegue ao riacho".
— Visto isto, meu senhor, / Entre vasmincê pra dentro, / Recolha-se àquele quarto, / Faça lá seu aposento. / E precisa-se saber / Da senhora D. Gia / Se nos promete sossego, / E não muita gritaria.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.