No Espaço
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Rompendo o ultimo laço / Que ainda à terra as prendia, / Encontrárão-se no espaço / Duas almas. Parecia / Que o destino as convocára
Para aquela mesma hora; / E livres, livres agora, / Correm a estrada do céu, / Vão ver a divina face: / Uma era a de Lovelace, / Era a outra a de Romeo.
Voavão… porém, voando / Fallavão ambas. E o céu / Ia as vozes escutando / Das duas almas. Romeo / De Lovelace indagava / Que fizera nesta vida / E que saudades levava.
«Eu amei… mas quantas, quantas, / E como, e como não sei; / Não seria o amor mais puro, / Mas o certo é que as amei. / Se era tão fundo e tão vasto / O meu pobre coração! / Cada dia era uma gloria, / Cada hora uma paixão. / Amei todas; e na historia / Dos amores que senti
Nenhuma daquelas belas / Deixou de escrever por si.
«Nem a patricia de Helena, / De verde mirto c'roada, / Nascida como açucena / Pelos zephyros beijada, / Aos brandos raios da lua, / Á voz das ninfas do mar, / Trança loura, espadua nua, / Calma fronte e calmo olhar.
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