Nem uma nem Outra
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — I
Uma tarde do mês de março de 1860, entrava no Hotel Ravot um velho mineiro, que, nesse mesmo dia, chegara de Mar de Espanha. Trazia um camarada consigo e alojou-se num dos aposentos do hotel, tendo o cuidado de restaurar as forças com um excelente jantar.
O velho representava ter cinquenta anos, e eu peço perdão aos homens que têm essa idade sem todavia estarem velhos. O viajante de quem se trata, posto viesse de um clima conservador, estava todavia alquebrado. Via-se pela cara que não era homem inteligente, mas tinha nos traços severos do rosto os sinais positivos de uma grande vontade. Era alto, um pouco magro, tinha os cabelos todos brancos. No entanto, era alegre, e desde que chegou à corte divertia-se muito com os espantos do criado que pela primeira vez saía da sua província para vir ao Rio de Janeiro.
Quando acabaram de jantar, amo e criado entraram a conversar amigavelmente e com aquela boa franqueza mineira tão apreciada pelos que conhecem a província. Depois de rememorarem os incidentes da viagem, depois de comentarem o pouco que o criado conhecia do Rio de Janeiro, entraram ambos no principal assunto que trouxera o amo ao Rio de Janeiro.
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