Livros › Lima Barreto › Quase Doutor

Capa de Quase Doutor

Quase Doutor

Lima Barreto (1881–1922)

Contos2 min de leitura2 páginas

O começo

A nossa instrução pública cada vez que é reformada, re­serva para o observador surpresas admiráveis. Não há oito dias, fui apresentado a um moço, aí dos seus vinte e poucos anos, bem posto em roupas, anéis, gravatas, bengalas, etc. O meu amigo Seráfico Falcote, estudante, disse-me o amigo co­mum que nos pôs em relações mútuas.

O senhor Falcote logo nos convidou a tomar qualquer coisa e fomos os três a uma confeitaria. Ao sentar-se, assim falou o anfitrião:

— Caxero traz aí quarqué cosa de bebê e comê .

Pensei de mim para mim: esse moço foi criado na roça, por isso adquiriu esse modo feio de falar. Vieram as bebidas e ele disse ao nosso amigo:

— Não sabe Cunugunde: o véio tá i .

O nosso amigo comum respondeu:

— Deves então andar bem de dinheiros.

— Quá ele tá i nós não arranja nada. Quando escrevo é aquela certeza. De boca, não se cava… O véio óia, óia e dá o fora .

Continuamos a beber e a comer alguns camarões e em­padas. A conversa veio a cair sobre a guerra europeia. O estudante era alemão dos quatro costados.

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Lima Barreto