Versos a Corinna
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Car la beauté tue / Qui l'a vue, / Elle enivre et tue.
A. Briseux.
Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijo / Numa hora de amor, de ternura e desejo, / Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor, / Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor; / Depois, depois vestindo a forma peregrina, / Aos meus olhos mortais, surgiste-me, Corinna!
De um jubilo divino os cantos entoava / A natureza mãe, e tudo palpitava,
A flor aberta e fresca, a pedra bronca e rude, / De uma vida melhor e nova juventude.
Minh'alma adivinhou a origem do teu ser; / Quiz cantar e sentir; quis amar e viver; / Á luz que de ti vinha, ardente, viva, pura, / Palpitou, reviveu a pobre criatura; / Do amor grande, elevado, abriram-se-lhe as fontes; / Fulgiram novos sóes, rasgaram-se horizontes; / Surgiu, abrindo em flor, uma nova região; / Era o dia marcado à minha redenção.
Era assim que eu sonhava a mulher. Era assim: / Corpo de fascinar, alma de querubim; / Era assim: fronte altiva e gesto soberano, / Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano, / Em olhos senhoris uma luz tão serena, / E grave como Juno, e bela como Helena! / Era assim, a mulher que extasia e domina, / A mulher que reúne a terra e o céu: Corinna!
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