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Madame Pommery

Lima Barreto (1881–1922)

Contos7 min de leitura6 páginas

O começo

Na sua Viagem ao Araguaia, em uma espécie de preâmbulo, o general Couto de Magalhães conta como causou um grande rôlo, em pleno teatro de gala, por ocasião de uma festa de 7 de Setembro, quando ele era ainda estudante de direito, o fato de um certo colega seu, também paulista, recitar, acompanhado de gargalhadas dos colegas, um soneto satírico, que começava assim:

Comendo içá, Lomendo cambuquira, / Vive a afamada gente paulistana / E aquelas a que chamam caipira, / Que parecem não ser da raça humana…

Içá é o que chamamos formiga tanajura; e lá, por aquelas priscas eras em que o general era estudante, se vendia, ao que parece, torrada, em tabuleiros ou cestos, pelas ruas, sendo guloseima apreciada como o nosso mindobi torrado, ainda apregoado à noitinha nos bairros pobres deste Rio de Janeiro.

Quem leu a Viagem desse curioso tipo de brasileiro que foi o general Couto de Magalhães, relembra isso quando acaba a leitura dessa estranha, original, por vezes desordenada, mas sempre brilhante obra, que é a crônica ou romance ou as duas coisas juntas, editadas pela Revista do Brasil, sob o sugestivo título de Mme. Pommery. A ostentação de hoje que este livro nos revela, dá um grande realce à modéstia e pacatez daqueles tempos de São Paulo. O café ainda não tinha pulado do vale do Paraíba para o do Tietê.

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