Onze Anos Depois
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — I
— Alves!
— Moreira!
Soltados estes dois gritos, os dois indivíduos, a quem pertenciam aqueles nomes, trocaram um formidável abraço, com palmadas nas costas, a despeito de se passar a cena na Rua do Ouvidor, às duas horas da tarde. Abraçados e palmejados os dois amigos (eram evidentemente amigos) tornaram a exclamar:
— Ora o Alves!
— Ora o Moreira!
— Há dez anos… Dez ou onze? Onze, creio eu, onze anos que nos não víamos… Foi em 1860 que eu saí daqui… e fui…
— Gozar a vida, maganão!
— Oh! um pouco! disse Moreira suspirando… Posso dizer que nada.
— Impossível!
— É a pura verdade. Alguma coisa me diverti, é certo; nem é possível que um homem, a não ser um misantropo, deixe de se divertir na Europa… Mas se soubesses a causa que me levou daqui…
— Que foi?
— Saberás depois. Por agora, dize-me: estás casado?
— Há cinco anos.
— Tens algum filho?
— Não.
— Livre! livre, e não foste ainda à Europa.
— Ainda não posso, mas não estou longe disso. Sabes que um advogado, que não herdou bens de fortuna, precisa primeiro acumular algum cabedalzinho; trato disso agora… Que calor! Anda tomar alguma coisa…
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