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Capa de Francisca

Francisca

Machado de Assis (1839–1908)

Contos23 min de leitura20 páginas

O começo

O poeta Daniel amava em Francisca tudo: o coração, a beleza, a mocidade, a inocência e até o nome. Até o nome! De mim digo que acho razão em Daniel. Não julguemos este nome de Francisca pelo uso e abuso que dele se faz; mas pela harmonia e doçura daquelas três sílabas, tão bem ligadas, tão amorosamente doces.

Daniel amava até o nome. Tinha nela o ideal da felicidade doméstica que se preparava a conquistar mediante as fórmulas sagradas do matrimônio.

O amor nasceu naqueles dois corações como a flor em planta que está de vez. Pareceu coisa escrita no livro dos destinos. Viram-se e amaram-se: o amor que os tomou foi um desses amores profundos e violentos a que nada resiste: um destes amores que fazem supor a existência de um sistema em que duas almas descem a este mundo, já predestinadas a viverem de si e entre si.

Ora, Francisca, no tempo em que Daniel a viu pela primeira vez, era um tipo de beleza cândida e inocente de que a história e a literatura nos dão o exemplo em Ruth, Virgínia e Ofélia; a pureza exterior denunciava a pureza interior; lia-se-lhe na alma através dos olhos límpidos e sinceros; uma sensibilidade sem pieguices, uma modéstia sem afetação, tudo o que a natureza, que ainda se não perverteu, pode oferecer ao coração e aos olhos de um poeta, tudo existia na amada do poeta Daniel.

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