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Lúcia (Machado de Assis)

Machado de Assis (1839–1908)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Nós estávamos sós; era de noite; / Ela curvara a fronte, e a mão formosa, / Na embriaguez da cisma, / Tênue deixava errar sobre o teclado; / Era um murmúrio; parecia a nota / De aura longínqua a resvalar nas balsas / E temendo acordar a ave no bosque; / Em torno respiravam as boninas / Das noites belas as volúpias mornas; / Do parque os castanheiros e os carvalhos / Brando embalavam orvalhados ramos; / Ouvíamos a noite, entre-fechada, / A rasgada janela / Deixava entrar da primavera os bálsamos; / A várzea estava erma e o vento mudo; / Na embriaguez da cisma a sós estávamos / E tínhamos quinze anos!

Lúcia era loura e pálida; / Nunca o mais puro azul de um céu profundo / Em olhos mais suaves refletiu-se. / Eu me perdia na beleza dela, / E aquele amor com que eu a amava – e tanto! – / Era assim de um irmão o afeto casto, / Tanto pudor nessa criatura havia!

Nem um som despertava em nossos lábios; / Ela deixou as suas mãos nas minhas; / Tíbia sombra dormia-lhe na fronte, / E a cada movimento – na minha alma / Eu sentia, meu Deus, como fascinam / Os dois signos de paz e de ventura: / Mocidade da fronte / E primavera da alma. / A lua levantada em céu sem nuvens / Com uma onda de luz veio inundá-la; / Ela viu sua imagem nos meus olhos, / Um riso de anjo desfolhou nos lábios / E murmurou um canto.

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