Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais
Bernardo Guimarães (1825–1884)
O começo — I
Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio?
Mas, por melhor que seja a minha vontade, não sei, como possa satisfazer ao vosso pedido… digo mal, – cumprir as vossas ordens.
Este frio enregela-me as asas da imaginação; este vento glacial, que uiva pelos telhados, como uma matilha de cães danados, estes guinchos de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspiração recolherse toda encolhida aos mais íntimos esconderijos do crânio, tiritando de frio e de medo.
A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o espírito tão seco e estéril, como a caveira de um defunto enterrado há cem anos.
Ah! falei-vos em caveira!…
E não é, que esta ideia de caveira veio despertar-me a reminiscência entorpecida pelo frio?!
Foi como a vara mágica de Moisés, que fez rebentar água em jorros da aridez do rochedo do deserto.
E pois vou contar-vos a história de uma caveira memorável.
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