A Viúva Sobral
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — I
— … Mas estás com pressa?
— Alguma.
— Em todo caso, não vais salvar o pai da forca.
— Pode ser.
— Explica-te.
— Explico-me.
— Mas explica-te refrescando a goela. Queres um sorvete? Vá, dois sorvetes. Traga dois sorvetes… Refresquemo-nos, que realmente o calor está insuportável. Estiveste em Petrópolis.
— Não.
— Nem eu.
— Estive no Pati do Alferes, imagina por quê?
— Não posso.
— Vou…
— Acaba.
— Vou casar.
Cesário deixou cair o queixo de assombro, enquanto o Brandão saboreava, olhando para ele, o gosto de ter dado uma novidade grossa. Vieram os sorvetes, sem que o primeiro saísse da posição em que a notícia o deixou; era evidente que não lhe dava crédito.
— Casar? repetiu ele afinal, e o Brandão respondeu-lhe com a cabeça que sim, que ia casar. Não, não, é impossível.
Estou que o leitor não sente a mesma incredulidade, desde que considera que o casamento é a tela da vida, e que toda a gente casa, assim como toda a gente morre. Se alguma coisa o enche de assombro é o assombro de Cesário. Tratemos de explicá-lo em cinco ou seis linhas.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.