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Uma Loureira

Machado de Assis (1839–1908)

Contos23 min de leitura20 páginas

O começo — I

Havia grande agitação em casa do comendador Nunes, em certa noite de abril de 1860.

Não era comendador o sr. Nicolau Nunes, era apenas oficial da Ordem da Rosa, mas todos lhe davam o título de comendador, e o sr. Nunes não resistia a esta deliciosa falsificação. A princípio reclamou sorrindo contra a liberdade dos amigos, que desta maneira emendaram a parcimônia do governo. Mas os amigos insistiam no tratamento, e até hoje ainda se não descobriu o meio de recusarmos uma coisa que desejamos do fundo dalma ser comendador, e quando falou ao seu compadre, o conselheiro F., foi com a mira na comenda. O conselheiro empenhou-se com o ministro, e este apenas consentiu em dar o hábito ao sr. Nunes. Graças aos empenhos, pôde o candidato obter o oficialato.

Era ele um homem de 45 anos, um tanto calvo, bem apessoado, nariz não vulgar, se atendermos no tamanho, mas vulgaríssimo se lhe estudarmos a expressão. O nariz é um livro, até hoje pouco estudado pelos romancistas, que aliás se presumem grandes analistas da pessoa humana. Eu, quando vejo alguém pela primeira vez, não lhe estudo a boca nem os olhos, nem as mãos; estudo-lhe o nariz. Mostra-me o nariz, e eu direi quem és.

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