Rezas e Orações
Lima Barreto (1881–1922)
O começo
A oração, à reza, não só nas freguesias afastadas, mas mesmo nas centrais, o povo atribui poderes superiores e miraculosos de várias aplicações. Há as que são destinadas a fins de cura, há as que se empregam em conjuração de moléstias, há outras para a proteção contra feitiços e "coisas feitas" de qualquer origem, tendo como fito perturbar a felicidade da nossa existência.
É corrente, e não sei como explicá-la, a frase: "Você anda caipora; precisa ir aos "barbadinhos" ou rezar nos "barbadinhos"."
Os "barbadinhos", como toda a gente sabe, são os capuchinhos italianos, cujo convento é no morro do Castelo; detentores, atualmente, da igreja mais antiga da cidade, onde está o túmulo de Estácio de Sá e no cunhal da qual existe o marco quinhentista da fundação da cidade, com as quinas do velho reino lusitano.
Os "barbadinhos do Castelo" entram sempre em tudo que se alude a benzeduras, e uma das suas missas, nas primeiras horas da manhã, creio que a primeira sexta-feira do mês, é tida entre os supersticiosos como possuindo a virtude de afastar o azar, o caiporismo, etc. Nunca a ela fui, mas muitos que lá foram me contam que tem uma frequência segura de jogadores de todas as classes, de raparigas de vida airada e outros devotos do Acaso, que vivem acorrentados aos seus caprichos.
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