Manuscrito de um Sacristão
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
….……. Ao dar com o padre Theophilo falando a uma senhora, ambos sentadinhos no banco da igreja, e a igreja deserta, confesso que fiquei espantado. Note-se que conversavam em voz tão baixa e discreta, que eu, por mais que afiasse o ouvido e me demorasse a apagar as velas do altar, não podia apanhar nada, nada, nada. Não tive remédio senão adivinhar alguma cousa. Que eu sou um sacristão filósofo. Ninguém me julgue pela sobrepeliz rota e amarrotada nem pelo uso clandestino das galhetas. Sou um filósofo sacristão. Tive estudos eclesiásticos, que interrompi por causa de uma doença e que inteiramente deixei por outro motivo, uma paixão violenta, que me trouxe à miséria. Como o seminário deixa…
II
Antes de ir adiante, direi que eram primos. Soube depois que eram primos, nascidos em Vassouras. Os pais dela mudaram-se para a corte, tendo Eulalia (é o seu nome) sete anos. Theophilo veio depois. Na família era uso antigo que um dos rapazes fosse padre. Vivia ainda na Bahia um tio, dele, cônego. Cabendo-lhe nesta geração envergar a batina, veio para o seminário de S. José, no ano de mil oitocentos e cinquenta e tantos, e foi aí que o conheci. Comprehende-se o sentimento de discrição que me leva a deixar a data no ar.
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