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Clodia

Machado de Assis (1839–1908)

Poesia6 min de leitura5 páginas

O começo

Era Clodia a vergontea ilustre e rara / De uma família antiga. Tez morena, / Como a casca do pecego, deixava / Transparecer o sangue e a juventude. / Era a romana ardente e imperiosa / Que os écos fatigou de Roma inteira / Co’a narração das longas aventuras. / Nunca mais gentil fronte o sol da Italia / Amoroso beijou, nem mais gracioso / Corpo envolveram túnicas de Tyro. / Sombrios, como a morte, os olhos eram. / A vermelha botina em si guardava / Breve, divino pé. Úmida boca, / Como a rosa que os zephyros convida, / Os beijos convidava. Era o modelo / Da luxuosa Lamia, — aquela moça

Que o marido esqueceu, e amou sem pejo / O musico Pollião. De mais, fazia / A ilustre Clodia trabalhados versos; / A cabeça curvava pensativa / Sobre as tabelas núas; invocava / Do clássico Parnaso as musas belas, / E, se não mente linguaruda fama, / Davam-lhe inspiração vadias musas.

O ideal da matrona austera e fria, / Caseira e nada mais, esse acabava. / Bem hajas tu, patricia desligada / De preconceitos vãos, tu que presides / Ao festim dos rapazes, tu que estendes / Sobre verdes coxins airosas formas, / Enquanto o esposo, consultando os dados, / Perde risonho válidos sestereios… / E tu, viúva misera, deixada / Na flor dos anos, merencoria e triste, / Que seria de ti, se o gozo e o luxo / Não te alegrassem a alma? Cedo esquece / A memoria de um óbito. E bem hajas, / Discreto esposo, que morreste a tempo. / Perdes, bem sei, dos teus rivais sem conta / Os custosos presentes, as ceiatas, / Os jantares opiparos. Contudo, / Não verás cheia a casa de crianças / Loiras…

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