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Capa de Cleópatra (Machado de Assis, 1864)

Cleópatra (Machado de Assis, 1864)

Machado de Assis (1839–1908)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Filha pálida da noite, / Nume feroz de inclemência, / Sem culto nem reverencia, / Nem crentes e nem altar, / 5A cujos pés descarnados… / A teus negros pés, ó morte! / Só engeitados da sorte / Ousam frios implorar;

Toma a tua foice aguda, / 10A arma dos teus furores;

Venho c'roado de flores / Da vida entregar-te a flor; / É um feliz que te implora / Na madrugada da vida, / Uma cabeça perdida / E perdida por amor.

Era rainha e formosa, / Sobre cem povos reinava, / E tinha uma turba escrava / Dos mais poderosos reis; / Eu era apenas um servo, / Mas amava-a tanto, tanto, / Que nem tinha um desencanto / Nos seus desprezos cruéis.

Vivia distante dela / Sem falar-lhe nem ouvi-la; / Só me vingava em segui-la / Para a poder contemplar; / Era uma sombra calada / Que oculta força levava, / E no caminho a aguardava / Para saudá-la e passar.

Um dia veio ela às fontes / Ver os trabalhos… não pude, / Fraqueou minha virtude, / Cahi-lhe tremendo aos pés. / Todo o amor que me devora, / Ó Venus, o íntimo peito, / Fallou naquele respeito, / Fallou naquela mudez.

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