
Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919)
Lima Barreto (1881–1922)
O começo — I
Nunca me passou pela mente que o meu amigo Gonzaga de Sá se dedicasse a cousas de balões. A não ser que o tal papel que me deixou entre muitos, queira exprimir outro pensamento, não posso crer, dada a amizade que mantinhamos, que ele me fosse ocultar essa digna preocupação de seu espirito. Tive sempre respeito por aquele que quer voar… Enfim!… Contemos a historia.
Conheci Gonzaga de Sá quando, certa vez, por dever de ofício, fui mandado à Secretaria dos Cultos. Tratava-se de um caso de salvas devidas a um bispo. O bispo de Tocantins, ao entrar no porto de Belém, a bordo de um gaiola , receberá da respectiva fortaleza, apenas dezessete tiros de salva. S. Revma. reclamou. Competir-lhe-iam dezoito tiros; e basto cabedal de textos e leis, a alta autoridade eclesiástica citou, fundamentando a sua opinião. A reclamação foi presente ao ministro dos Cultos, cuja secretaria, na longa informação que deu, aludiu à questão das investiduras, à dos bispos no tempo do Império e ao direito canônico, ainda por cima, sem nada resolver de definitivo.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.