Uma Partida
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — I
Posso dizer o caso, o ano e as pessoas, menos os nomes verdadeiros. Posso ainda dizer a província, que foi a do Rio de Janeiro. Não direi o município nem a denominação da fazenda. Seria exceder as conveniências sem utilidade.
Vai longe o ano; era o de 1850. A fazenda era do coronel X, digamos Xavier. Boa casa de vivenda, muitos escravos, mas pouca ordem, e produção inferior à que devia dar. O feitor, que era bom a princípio, ", como dizia o coronel aos amigos, "como diziam os amigos do coronel. Corriam algumas lendas; sussurrava-se que o fazendeiro devia certas mortes ao feitor, e daí a dependência em que estava dele. Era falso. Xavier não tinha alma assassina, nem sequer vingativa. Era duro de gênio; mas não ia além de algumas ações duras. Isso mesmo parece que afrouxava nos últimos tempos. Talvez tivesse pouca aptidão para dirigir um estabelecimento agrícola; mas os primeiros anos de propriedade desmentiam…
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