Raimundo Correia: Sinfonias
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Suponho que o leitor, antes de folhear o livro, deixa cair um olhar curioso nesta primeira página, só que não. Sabe que não vem achar aqui uma crítica severa, não é o ofício dos prefácios; - vem apenas lobrigar, através da frase atenuada ou calculada, os impulsos de querer simpatia ou de fervor; e, na medida da confiança que o prefacista lhe merecer, assim trocam todas as voltas, e vão aguardar o leitor onde este não espera por eles. É o nosso caso. Em vez de lhe dizer, desde logo, o que penso do poeta, com palavras que a incredulidade pode converter em puro obstrequio literário, antecipo uma página do livro; e, com essa outra malícia, dou-lhe a melhor das opiniões, porque é impossível que…
MAL SECRETO / Se a cólera que espuma, a dor que mora / N' alma, e destrói cada ilusão que nasce, / Tudo o que punge, tudo o que devora / O coração, no rosto se estampasse; / Se se pudesse o espírito que chora, / Ver através da máscara da face, / Quanta gente, talvez, que inveja agora / Nos causa, então piedade nos causasse! / Quanta gente que ri, talvez, consigo / Guarda um atroz, recôndito inimigo, / Como invisível chaga cancerosa! / Quanta gente que ri talvez existe, / Cuja ventura única consiste / Em parecer aos outros venturosa!
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