
Lendas do Sul
João Simões Lopes Neto (?–1916)
O começo — A M'boi-tátá
Agradeço não me haveres esquecido com a tua amizade e com o teu talento. A lendada «Boi-tátá», também conhecida dos nossos sertanejos, com variantes que muito a differençam da que escreveste, deve figurar no «folk-lore» gaúcho, onde já cintila, acesa por ti, a velinha do «Negrinho do Pastoreio», à cuja claridade puzeste o meu nome. Prossegue, porque fazes trabalho de valor e muito me alegro por haver insistido com a tua modéstia para que continuasses a colher, aqui, ali, essas flores eternas da Poesia do povo, fazendo com elas o ramo que será um encanto para todas as almas e gloria para o teu nome. Abraço-te teu
Coelho Netto
Rio 20-xi-09
Foi assim:
num tempo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia.
Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores da mataria.
Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo canjica insôssa; os borralhos estavam se apagando e era preciso poupar os tições…
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