Homem de Mello e B. Pinheiro – A Constituinte perante a História e Sombras e Luz
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Encetando hoje estas conversas, não posso dissimular o sentimento de tristeza que me domina.
Olho em torno de mim e não vejo mais na arena aquela plêiade ardente que vinha todas as semanas, ao rés do chão, entrar nas justas literárias. Uns, levou-os a morte, outros prendem-se a cuidados mais sérios, alguns enfim foram-se para as justas políticas, e o folhetim, o garrido, o ameno, o viçoso folhetim perdeu os seus amigos e os seus leitores.
E contudo sempre me pareceu que o folhetim era uma função obrigatória e exclusiva, para a qual nunca devia soar a hora da morte ou a hora da política. Era um erro.
Tout arrive, dizia Taleirand, e foi preciso que eu visse o fato para acreditar que também ao folhetim devia chegar a hora da política e a hora da morte.
Nos bons tempos do folhetim era digna de ver-se a luta.
O estímulo entrava por muito no trabalho de cada um, do que resultava trabalharem todos com maior proveito e gloria. Hoje a melhor vontade há de nulificar-se no meio do caminho. É uma voz no deserto, sem eco nem competidores.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.