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O Saldo

Lima Barreto (1881–1922)

Crônica e ensaio2 min de leitura2 páginas

O começo

No meado da semana passada, os povos destes brasis foram surpreendidos com a notícia de golpes de morte desfechados em duas tradições veneráveis: uma, da nação, e a ou­tra, da cidade.

Refiro-me ao anúncio de que para o ano que vem, o orçamento havia de fechar-se com saldo avultado e do aviso do observatório do Castelo de que o venerável "balão do meio dia" ia ser suprimido e substituído por lâmpadas elé­tricas de tal força que a sua luz seria capaz de bater a do Sol a pino e brilhar mais do que a do astro-rei.

O balão, segundo dizem, tem oitenta anos de existência; o déficit,porém, é mais velho.

Não sei se ele vem do tempo do Brasil colônia; mas é de crer que sim, porquanto os reis de Portugal, mesmo nos tempos da maior prosperidade do velho reino, sempre andaram em aperturas, imaginando expedientes para arranjar dinheiro.

Às vezes, atiravam-se à bolsa dos judeus; às vezes a concessões de estancos e monopólios. Saldo, porém, não havia.

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