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História de uma Lágrima

Machado de Assis (1839–1908)

História19 min de leitura17 páginas

O começo

Que é uma lágrima? A ciência dar-nos-á uma explicação positiva; a poesia dirá que é o soro da alma, a linguagem do coração. Bem pouco avulta essa leve gota de humor que os olhos vertem por alguma causa física ou moral. É nada e é tudo; para os ânimos práticos é um sinal de fraqueza; para os corações sensíveis é um objeto de respeito, uma causa de simpatia.

Alexandre Dumas comparou eloqüentemente o dilúvio a uma lágrima do Senhor, lágrima de dor, se a dor pode ser divina, que a impiedade arrancou dos olhos do autor das coisas.

Mas a lágrima cuja história empreendo nestas curtas e singelas páginas não foi tamanha como essa que produziu o grande cataclisma. Foi uma simples gota, derramada por olhos humanos, em hora de aflição e desespero. Quem tiver chorado achar-lhe-á algum interesse.

Conheci um homem de trinta anos que era o homem mais singular do mundo, começando por parecer sexagenário. Era alto, e daquela severa beleza que consiste em mostrar nos traços do rosto os sulcos de um grande e nobre sofrimento. Os cabelos eram todos brancos, caídos para trás sem afetação nem cuidado. Tinha os olhos fundos. Era pálido, magro, curvado. Vivia só, numa casa escondida lá para as bandas de Catumbi, lugar que ele próprio escolhera para não dar muito trabalho aos amigos que quisessem levá-lo ao cemitério. Poucas vezes saía; lia algumas vezes; meditava quasempre.

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