História de um Mulato
Lima Barreto (1881–1922)
O começo
O livro do Sr. Enéias Ferraz - História de João Crispim - aparecido recentemente, apesar de umas ousadias fáceis que a sua mocidade desculpa, é obra de mérito que merece ser lida.
É livro de um tipo só, porque os outros, mesmo o do poeta Afonso Pina, mais longamente estudado, ficam apagados diante da força com que o autor analisou o seu personagem central; e essa análise é feita - pode-se dizer sem favor algum - é feita com grande cuidado e rara lucidez.
Trata-se de um rapaz de cor, de grande cultura, egresso de toda e qualquer sociedade, menos da das bodegas, tascas e prostíbulos reles.
É um caso de "moléstia da cor", como qualifica Sílvio Romero, tratando de Tito Lívio de Castro, no prefácio que escreveu para - A mulher e a sociogenia - desse malogrado escritor.
O derivativo para essa tortura, para essa moléstia especial, no personagem do Sr. Enéias Ferraz, não é o estudo, embora seja ele um estudioso; não é o bordel, embora não hesite em frequentar o mais baixo que seja; não é a arte, embora escreva e seja ilustrado; é o álcool, álcool forte, "whisky", cachaça.
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