A Minha Terra
O começo
No álbum do meu amigo João de Aboim.
Minha terra não tem os cristais / Dessas fontes do só Portugal, / Minha terra não tem salgueiraes, / Só tem ondas de branco areal.
Em seus campos não brota o jasmim, / Não matisa de flores seus prados, / Não tem rosas de fino carmim, / Só tem montes de barro escarpados.
Não tem meigo trinar — mavioso / Do fagueiro, gentil rouxinol, / Tem o canto suave, saudoso / Da Benguella no seu arrebol,
Primavera não tem tão brilhante / Como a Europa nos sóe infiltrar, / Não tem brisa lasciva, incessante, / Só tem raios de sol a queimar.
Não tem frutos por Deos offertados, / Qual mimoso torrão português, / Não tem rios por Bardos cantados, / Qual Mondego, nos factos de Ignez.
Não tem feitos de gloria qu’ao mundo / Orgulhosa se possa ufanar, / Não tem fado, destino jucundo, / E se o tem, quem o há danhelar? —
Tem palmeiras de sombra copada / Onde o Sóba de tribu selvagem, / Em c’ravana de gente cansada, / Adormece sequioso daragem.
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