Revelação de um Sonho
O começo
«Sangue! Sangue! — Do inferno horríveis cenas, / «Desviáe-m’as, oh! meu Deus, por piedade!» / — Era este o bradar de um desgraçado, / Que após tremendo sonho, espavorido, / Tremulo de terror, julgava ainda, / Com ervado punhal, por mão iníqua, / O halito da morte estar sorvendo!
Sonhava sobre a face jaspeada / De cândida donzela adormecida, / Sem que rubra de pejo ela corásse, / Nem dos lábios o frêmito pudesse / Attenta ouvir, um casto e doce beijo, / De puro amor nascido, ter impresso. / — Também sonhava já estar cingido / Por laço de marfim ao niveo colo / Dessa Virgem, que pura, brando arfava / Dulcissimos anhelos não scismados / No embate desta vida attribulada!
Sonhava vê-la / Qual linda rosa, / Sempre viçosa, / E sempre bela.
Tão casta e pura, / Como revela / Brilhante estrela / Em noite escura.
Tão carinhosa / Como a ternura, / Na desventura, / De Mãe piedosa.
Desse extasis de amor a si voltava, / Quando por férrea mão ao chão prostrado, / Com força viu um ferro, traspassar-lhe, / Daguda ponta, o adyto do peito, / E com voz de trovão ingente espectro, / Morre! — Pérfido! Morre!» — assim bradar-lhe. / «— Também sonhava em noite umbrosa e feia, / Em longiquo santuário a horas mortas, / Onde lânguida luz vertendo apenas / De baça lampada luctuosas sombras, / Junto a aras sagradas soluçando / Pudibunda donzela, qu’ajoelhada / De amor juras solenes repetia: / E quando a destra sua em laço eterno
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