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Orai por Ele!

Machado de Assis (1839–1908)

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O começo

— Não, isso não; os discursos eram dele mesmo. Nem era possível que não fossem. Como se há de levar de cor um discurso, para uma assembleia de acionistas, em que tantos falam e sem ordem?

— Você está enganado. O comendador proferia discursos muito bem dispostos, não respondia aos apartes que, às vezes, destruíam um argumento, e não replicava nunca a outro orador. Quando era o primeiro que falava, podia disfarçar um pouco; mas quando era o segundo ou terceiro, é que se via bem. Por isso empenhava-se sempre em falar antes de todos.

— Pois olhe, não me parecia… Ele era entendido em negócios.

— Era, isso era, mas decorava os discursos.

O carro chegou à Praia de Botafogo, voltando do cemitério. Pedro e Paulo tinham ido enterrar o comendador, que falecera na véspera, de um tifo. Vieram calados, a princípio, depois falaram das novas casas do bairro, afinal caiu a conversa no defunto, a propósito de uma casa que ele vendera três meses antes. Paulo dizia que a casa fora mal vendida. Pedro ponderou que os dinheiros mal ganhos não aproveitavam aos donos. Ao que Paulo redargüiu que não, que o comendador era homem honesto, posto que burro.

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