Histórias e Sonhos (1920)
Lima Barreto (1881–1922)
O começo — Observação
Quando a impressão deste livro ia já pela metade, ocorreu o falecimento de Prudencio Cotegipe Milanez, a quem é ele dedicado. Milanez foi meu chefe de secção na Secretaria de Estado da Guerra: mais do que isso, porém, foi um meu amigo bondoso e paternal.
Não fora ele e alguns outros companheiros, não me lembraria mais de que havia passado pelas catacumbas do Quartel General, onde se guardam, com o máximo cuidado, nos seus ataúdes, adornados de belos dourados e pinturas, tantas múmias que nem hieróglifos enigmaticos possuem nos seus caixões mortuarios, afim de permitir ao curioso, com esforço e sagacidade, decifrar-lhes os nomes, o que foram e o que fizeram de útil e grande na vida.
Milanez morreu, como já foi dito; e a dedicatória devia ser em outros termos: à memória, etc., etc., etc. Tem de ficar como está, fazendo crer ao desprevenido que ele ainda é deste mundo. Não havia inconveniente algum nisso, pois, para mim, talvez seja essa a forma exata e justa de homenagear o meu generoso amigo, tanto ele é vivo na minha saudade e na minha gratidão. Era preciso, entretanto, explicar isto ao leitor: e é o que estas breves linhas pretendem.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.