Os Arlequins (1864)
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
(1864.) / Que deviendras dans l'éternité l'ame dun / homme qui a fait Polichinelle toule sa vie? / M.me de Stael.
Musa, depõe a lira! / Cantos de amor, cantos de gloria esquece! / Novo assumpto aparece / Que o gênio move e a indignação inspira. / Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga! / Musa, toma a vergasta, / E os arlequins fustiga!
Como aos olhos de Roma, / — Cadáver do que foi, pavido império / De Caio e de Tiberio,- / O filho de Agripina ousado assoma; / E a lira sobraçando, / Ante o povo idiota e amedrontado, / Pedia, ameaçando, / O aplauso acostumado;
E o povo que beijava / Outr'ora ao deus Calligula o vestido, / De novo submetido / Ao régio saltimbanco o aplauso dava. / E tu, tu não te abrias, / Ó céu de Roma, à cena degradante! / E tu, tu não cahias, / Ó raio chammejante!
Tal na historia que passa / Neste de luzes século famoso, / O engenho portentoso
Sabe iludir a nescia populaça; / Não busca o mal tecido / Canto de outr'ora; a moderna insolência / Não encanta o ouvido, / Fascina a consciência!
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