Rufina e o Soneto
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
Pobre Rufina! Tão juvenilmente graciosa e linda ainda há dois meses… Parecia arder em mocidade e beleza como uma pedra preciosa. Agora, dá-me a ideia de uma pérola moribunda.
É assim este mundo; um resfriado, uma pleurisia, três semanas de cama - e eis um corpo e uma alma completamente modificados, e uma vida clara e leve como um regato da montanha mudada num ribeirão turvo do vale triste!
Viajei hoje com ela. Descorada e descarnada, metida num vestido escuro e pobre, era apenas uma sombra da outra Rufína. Disse-me coisas graves sobre a vida. Queixou-se das suas ilusões malucas, que a conduziram até há pouco através das almas e das coisas como através de uma festa, para, de repente, a abandonarem entre essas duas megeras - a Solidão e a Necessidade.
Chegou a falar-me de Deus, e, entre dois acessos de tosse, perguntou-me, com a simplicidade suprema de quem pedia uma informação:
- "Será que ele me aceita?"
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