Rufina (VIII)
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
O homem é um ser tão mesquinho, que onde quer que ele se ajunte logo lhe sobrevem, pelo número, uma alma coletiva, embora muito rudimentar.
A multidão que se ensardinhava em redor do orador tinha visivelmente a sua; toda ela se agitava num só ritmo, gritava com uma só voz e se enchia de braços erguidos como um só bicho a eriçar-se numa só contração momentânea. O bonde também a possuía mas indiferente, comodista e escarninha.
Uma contava o seu tempo pelo mostrador pequeno, a outra media o dela pelo quadrante maior. Eram duas entidades inconciliáveis, vivendo em duas esferas distintas e irredutíveis da duração.
As duas almas se olhavam sem se compreender: nem a da rua se aplacava, nem se inflamava a do bonde. Dois mundos com trajetórias opostas, um em ebulição, outro frio.
Um começo de automática hostilidade pairava entre um e outro. Viesse um pequeno impulso, e os dois sistemas talvez se engalfinhassem com cega violência, como dois içás colocados rosto a rosto mecanicamente assumem o papel de inimigos de morte, e se agarram e se estraçalham com um santo e inconsciente heroísmo.
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