Rufina (VI)
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
Encontrei-me hoje com o boticário, a quem não via desde a última vez que vira Rufina.
"Quem é aquela moça", lhe perguntei, "que, há coisa de duas semanas, viajou conosco neste bonde? Aquela morenota de olhos grandes e úmidos? Aquela de bonitos dentes? Aquela espigadinha, de branco, a quem você, saltando do carro, deitou uma olhadela xaroposa?"
Fabiano custava-lhe recordar-se. Vincou a testa, cravou os olhos no tejadilho, levou a unha do indicador para entre os incisivos, com a boca aberta.
- "Uma gorda, de cabelo ondado?"
- "Nada. Não ofenda."
- "Não me lembro… Espere. Uma alta, de nariz grande?"
- "Já lhe disse que era morena, pequena, engraçada."
Fabiano agitou-se, como que para sacolejar a caixa das lembranças, atirou uma perna para cima da outra, curvou o busto, agarrou o queixo, carregou o cenho. "Diabo!" De repente, riu-se, deu-me uma tapona no joelho e exclamou:
- "Já sei! Uma cabrochinha, não é isso?"
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