Rui de Leão
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — I
Consta de crônicas inéditas e secretas que, ali pelos anos de 1630, vivia no interior do Brasil, um fidalgo chamado Rui de Leão, varão de boas prendas, extremado na língua do país e aparentado com uma família tamoia, por ter casado com uma das suas mais belas filhas.
Rui de Leão contava nesse tempo cerca de quarenta anos. Era robusto, corado, ativo, tão enérgico na alma como no corpo. Tinha no rosto uns longes de melancolia que se dissipavam muita vez sem que de todo se extinguissem. Parece que a causa dessa desconhecida tristeza prendia com infortúnios que sofrera em Portugal, e que o trouxeram ao Brasil em um dos régios galeões. O certo é que o nosso fidalgo, esquecendo totalmente a grandeza da sua raça, não duvidou em unir-se pelos laços do matrimônio à filha de um velho pajé.
Matrimônio, digo eu, unicamente para usar de um termo corrente; mas a verdade é que não se deve ligar a esta palavra a ideia cristã que lhe damos. O matrimônio do fidalgo consistiu nas cerimônias indígenas. Debalde o padre Pires tentou converter a esposa do fidalgo e santificar a união. Rui de Leão respondia que, de ora em diante, era tamoio, pois que sua mulher o era, e mandou embora o padre.
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