Peregrinação pela Província de S. Paulo, por A. E. Zaluar
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Não sei que hajam muitas coisas acima do prazer de viajar. Viajar é multiplicar a vida. De país em país, de costumes em costumes, o homem que nasceu com propensão e gosto para isso, renova-se e transforma-se. Mas, fique bem claro, é preciso ter gosto e propensão; é preciso ser poeta; os lorpas também viajam; mas, porque lhes falta o dom natural de apreciar e sentir as coisas, aborrecem-se por vaidade, ou divertem-se por aberração.
Aos que não podem ir ver com os olhos da carne as terras e os costumes alheios, reserva-se um prazer, um tanto ilusório, mas, ainda assim, suficiente para almas de boa tempera: é a narração dos viajantes poetas. Diante de um livro de viagens, escrito por um poeta, o homem reparte-se; deixa em casa a outra de Xavier de Maistre, e vai todo nas asas da imaginação aos lugares per lustrados pelo escritor.
Estou no caso; e não poucas vezes tenho empreendido excursões dessa natureza.
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