Livros › Raul Pompeia › O Ateneu (Crônica de Saudades)

Capa de O Ateneu (Crônica de Saudades)

O Ateneu (Crônica de Saudades)

Raul Pompeia (?–1895)

Romance4 h 40 de leitura243 páginas

O começo — I

«Vaes encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Atheneu . Coragem para a luta.

Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor domestico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artificio sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, tempera brusca da vitalidade na influencia de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outr'ora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.

Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de purpura ao crepúsculo—a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.

Raul Pompéia (autor) morreu em 1895; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1966.

Mais de Raul Pompeia