A Mona do Sapateiro
Raul Pompeia (?–1895)
O começo — I
Ela servia bem…
Era redondinha, rosada, bonita. Sobretudo era nova, novíssima mesmo…
Uns dezesseis anos se tanto.
Fernando e Emílio espiavam-na. Viam-na à porta da lojinha do pai, o sapateiro Cândido, um Cândido preguiçoso, ébrio e pobre. Achavam tentadora, ó diabo! a melancolia da menina, com o rosto colado ao portal da loja, observando quem passava e seguindo com um olhar expressivo as mocinhas de sua idade que transitavam de carro, ou vinham pelo passeio, a pé, apanhando garbosamente a seda farfalhante das saias para não roçarem pelo vestidinho enxovalhado e sujo, que lhe caía dos quadris.
Não trabalhava quase a filha do sapateiro. A ociosidade do pai a escusava ante a própria consciência e a opinião pública, isto é, o veredict da vizinhança.
Demais, a Joaninha vivia desgostosa. O pai, quando se embebedava, (e isto era frequente) maltratava-a muito, injuriava-a desabridamente; chamava-a descarada, cadela… Mortificava aquilo. E ela não tinha gosto pelo trabalho. Levava as horas num farniente lânguido, aborrecida, dissolvendo-se cm mórbida tristeza, ou erguendo castelos de ouro, sobre as suas ilusões de menina ambiciosa…
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