Caricaturas Reais - O Piano
Raul Pompeia (?–1895)
O começo
Dó… ré… mi… fá… sol… mi… fá… ré… dó…
Grande cousa o piano!
Os dotes da educação, pensava Maria das Dores, suprem perfeitamente a falta de dotes físicos… Por que não? Cada um caça como pode.
Pois, uma insinuante escala cromática não valerá um requebro de olhar, uma semicolcheia não valerá um sorriso, o pianíssimo não poderá fazer vezes de um traço de meiguice diluído pela fisionomia?!
A arte poderosa inventa beleza. Uma donzela desprestigiada pela boa fada da formosura bem pode salvar o deficit, adquirindo um dote artístico. A música… a música, por exemplo, impressiona, cativa como os belos olhos!
Dó… ré… mi… fá… sol… mi… fá… re… dó…
Maria das Dores era feia.
Cara comprida, o queixo a estender-se-lhe para baixo como se quisesse alojar-se entre as clavículas; o nariz, delgada lâmina em forma de leme, erguida no meio do rosto, com receio talvez de que se vissem um ao outro os implicantes olhinhos; os olhos negros, miúdos, brilhantes, encravados em fundas órbitas; testa larga, cabelos rareados… Feia incontestavelmente.
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