
Cinco Minutos
José Martiniano de Alencar (1829–?)
Perder um bonde por cinco minutos muda uma vida inteira.
Por que ler
A primeira ficção publicada de Alencar, de 1856, em forma de carta. É curtíssima — uma hora — e serve de porta de entrada tanto para o autor quanto para o romantismo brasileiro, sem compromisso.
Para observar
Tudo é contado por quem está apaixonado, para a pessoa amada. Pergunte o que essa escolha esconde.
O começo — I
É uma historia curiosa a que lhe vou contar, minha prima. Mas é uma historia, e não um romance.
Há mais de dous anos, seriam seis horas da tarde, dirigi-me ao Rocio para tomar o omnibus de Andarahy.
Sabe que sou o homem o menos pontual que há neste mundo: entre os meus imensos defeitos e as minhas poucas qualidades, não conto a pontualidade [6] essa virtude dos reis, e esse mão costume dos Inglezes.
Entusiasta da liberdade, não posso admitir de modo algum que o homem se escravise ao seu relógio e regule as suas ações pelo movimento de uma pendula.
Tudo isto quer dizer que, chegando ao Rocio, não vi mais omnibus algum; o empregado à quem dirigi-me respondeu:
—Partiu há cinco minutos.
Resignei-me, e esperei pelo omnibus de sete horas.
Anoiteceu.
Fazia uma noite de inverno fresca e úmida: o céu estava calmo, mas sem estrelas.
À hora marcada chegou o omnibus, e apressei-me à ir a tomar o meu lugar.
Procurei, como costumo, o fundo do carro, afim de ficar livre das conversas monótonas dos recebedores, que [7] de ordinário têm sempre uma anedota insipida à contar, ou uma queixa à fazer sobre o mau estado dos caminhos.
José Martiniano de Alencar (autor) morreu em 1877; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1948.