
Como e Porque Sou Romancista
José Martiniano de Alencar (1829–?)
O começo — I
Na conversa que tivemos, há dias, exprimiu V. o desejo de colher acerca da minha peregrinação literária, alguns pormenores dessa parte intima de nossa existência, que geralmente fica à sombra, no regaço da família, ou na reserva da amizade.
Sabendo de seus constantes esforços para enriquecer o ilustrado autor do Diccionario Bibliographico , de copiosas noticias que ele dificilmente obteria à respeito de escritores brasileiros, sem a valiosa coadjuvação de tão erudito glossologo; pensei que me não devia eximir de satisfazer seu desejo e trazer a minha pequena quota para a amortização desta divida de nossa ainda infante literatura.
Como bem reflexionou V., há na existência dos escritores factos comuns, do viver quotidiano, que todavia exercem uma influencia notável em seu futuro, e imprimem em suas obras o cunho individual.
Estes factos jornaleiros, que à própria pessoa muitas vezes passam despercebidos sob a monotonia do presente, formam na biografia do escritor a urdidura da tela, que o mundo somente vê pela face do matiz e dos recamos.
José Martiniano de Alencar (autor) morreu em 1877; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1948.