O Primo Bazilio: Episódio Domestico
Eça de Queirós (1845–1900)
Um adultério de província contado sem heroísmo nenhum — e é isso que dói.
Por que ler
Eça pega o enredo mais banal do século e recusa dar grandeza a ele. Luísa não é trágica, Basílio não é sedutor, e a criada que descobre tudo é quem manda no livro. Machado de Assis escreveu uma crítica famosa acusando Eça de deixar o acaso resolver — vale ler as duas coisas.
Para observar
Acompanhe Juliana, a criada. O poder muda de mão quando ela acha a carta, e o romance passa a ser sobre chantagem doméstica, não sobre amor.
O começo — I
Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:
—Tu não te vais vestir, Luiza?
—Logo.
Ficara sentada à mesa, a ler o Diario de Noticias , no seu roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soutache , com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado à mesa acariciava [6] a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dous anéis de rubis miudinhos davam cintilações escarlates.
Tinham acabado dalmoçar.
A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo: fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silencio recolhido e sonolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amollentava, trazia desejos de séstas, ou de sombras fôfas debaixo darvoredos, no campo, ao pé dágua; nas duas gaiolas, entre as bambinelas de cretone azulado, os canários dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chavenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a sala de um rumor dormente.
Eça de Queirós (autor) morreu em 1900; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1971.