
A Cidade e as Serras
Eça de Queirós (1845–1900)
Um homem que tem tudo em Paris descobre que não sente nada.
Por que ler
Eça de Queirós escreveu, no fim da vida, a comédia de um civilizadíssimo Jacinto cercado de máquinas, telefones e teorias — e completamente vazio. O contraste com a serra portuguesa é a tese do livro, e Eça sabe que ela é simples demais; é por isso que a escreve rindo.
Para observar
Conte quantos aparelhos Jacinto possui no começo e quantos usa. A comédia está nessa diferença.
O começo — I
O meu amigo Jacintho nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e dolival. No Alemtejo, pela Extremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao mar de Ancora. Mas o palácio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em Paris,…
Eça de Queirós (autor) morreu em 1900; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1971.