
A Relíquia
Eça de Queirós (1845–1900)
Um beato falso vai a Jerusalém e volta com a prova errada.
Por que ler
Eça em modo cômico, e um dos livros mais engraçados da língua. Teodoro finge devoção para herdar da tia, e a farsa desmorona por um embrulho trocado. Por baixo da comédia, uma tese: a fé de fachada é um negócio, e todo mundo sabe.
Para observar
Teodoro narra a própria safadeza sem perceber que está se entregando. Repare no que ele acha que é normal.
O começo — I
Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em teologia, autor de uma devota Vida de Santa Philomena , e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assumpção, chamava-se Rufino da Assumpção Raposo—e vivia em Evora com a minha avó, Philomena Raposo, por alcunha a «Repolhuda,» doceira na rua do Lagar dos Dizimos. O papá tinha um emprego no correio, e escrevia por gosto no Pharol do Alemtejo .
Em 1853, um eclesiástico ilustre, D. Gaspar de Lorena, bispo de Chorazin (que é em Galilêa), veio passae o S. João a Evora, a casa do cônego Pitta, onde o papá muitas vezes à noite costumava ir tocar violão. Por cortesia com os dois sacerdotes, o papá publicou no Pharol uma crônica, laboriosamente respigada no Peculio de Prégadores , felicitando Evora «pela dita dabrigar em seus muros o insigne prelado D. Gaspar, lume fulgente da Igreja, e preclarissima torre de santidade.» O bispo de Chorazin recortou este pedaço do Pharol para o meter entre as folhas do seu Breviario; e tudo no papá lhe começou a agradar, até o asseio da sua roupa branca, até a graça chorosa com que ele cantava,…
Eça de Queirós (autor) morreu em 1900; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1971.