
Livro de Consolação: Romance
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo
Camillo Castello-Branco.
Le résultat de l'art… c'est l'adoucissement des esprits et des mœurs, c'est la civilisation même.
V. H UGO. — Les voix intérieures.
Em uma tarde de agosto de 1867, passeava eu, com um amigo de aprazível trato, nos arrabaldes de Lisboa, e comparávamos a desamena e árida vegetação daquelas gándaras com os arvoredos e verdejantes vales do Minho.
Ali por perto de Odivelas me disse o meu amigo Luiz da Silva:
—Entremos por esta azinhaga que não tem saída. Isto vai dar àquela casinha branca. Mora lá um velho a quem te vou apresentar. Mas quem sabe se o homem morreu?! Há três anos que o não vi…
—Tem esse sujeito—perguntei eu com a minha natural magnanimidade de immortalisador—passagens na vida dignas de crônica?
—Tem, e magníficas.
—Capazes de um volume de 250 paginas em 8.º?
—Isso não sei. A biografia deste homem é uma infelicidade vulgar, que, todavia, fez grande estrondo; mas os naufrágios do coração parecem-se aos do mar: abre-se um abismo, que sorve centenares de vidas, e daí a pouco nenhum vestígio sobrenada à flor das ondas; assim sucedeu na procela que sossobrou o velho que vais ver.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.