A Queda d'um Anjo: Romance
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
Um fidalgo do interior vai a Lisboa fazer política e volta outro homem — pior.
Por que ler
Camilo em modo satírico, de 1866. Calisto Elói chega ao parlamento com princípios rígidos e os troca um a um. É comédia, e é a coisa mais atual desta lista.
Para observar
Marque o momento exato em que ele cede pela primeira vez. Depois dele, o resto é ladeira.
O começo — I
Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.
Seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e decimo sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolastica, procedia dos Silos, altas dignidades da igreja, commendatarios, sangue limpo, já bom sangue no tempo do senhor rei D. Affonso I, fundador de Miranda.
Fez seus estudos de latinidade no seminário bracharense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure . Porém, como quer que o pai lhe fallecesse, e a mãe contrariasse a projetada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo da casa algum tanto, e muito à leitura da copiosa livraria, parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cônegos, desembargadores do eclesiástico, cathedraticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima de sua mãe.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.